Capítulo II – A preparação para a Exposição

13 Maio, 2008

-Prof. Mauro! Prof. Mauro! – Chamava uma jovem, sacudindo papéis nas mãos.

Um homem com grandes óculos, de lentes grossas que deixavam transparecer olhinhos diminuídos, virou-se e viu quem o tirava de sua atenta análise do Santo Cálice de Valência. O Prof. Guido Mauro era um dos mais afamados arqueólogos italianos. Seus cabelos brancos até as raízes davam-lhe um ar de sabedoria. Mas o fato de serem longos, caindo até os ombros, exprimiam-lhe certa jovialidade. Sua pele estava enrugada e queimada, resultados de uma longa passagem pela África, investigando pinturas rupestres antiqüíssimas.

Mas a paixão de Guido Mauro não eram nem estas pinturas rupestres, nem as tumbas faraônicas do Egito, ou os palácios persas, ou o que quer que fosse. Ele gostava disto tudo, mas paixão tinha uma só, obsessão somente uma: o Santo Cálice de Valência.

Fora o Santo Cálice que lhe valera o Mestrado e o Doutorado, fora ele que lhe valera três best-sellers. Era o Santo Cálice de Valência o pensamento constante a cada inspirar e expirar de Guido Mauro.

E agora uma jovem lhe tirava aos gritos de sua reflexão acurada sobre a relíquia.

Mauro não gostou nenhum pouco, mas se conteve.

-O que é, Srta. Carmélia?

A jovem estendeu-lhe os papéis.

-Acabei de receber os documentos que o senhor pediu ao Prof. Arturo Estivaz. Aqui estão…

Prof. Mauro tomou os papéis da mão da jovem e virou-se novamente:

-Obrigado, Srta. Carmélia. Pode ir agora.

A jovem saiu desapontada: esperava agradar o tutor, mas não lograra êxito…

Mauro fixou novamente os olhos no Santo Cálice.

Estavam a apenas 15 centímetros de distância, separados por um vidro. Durante toda a vida quisera pôr as mãos na relíquia, analisá-la, estudá-la.

Seus dedos se fecharam num movimento contínuo e vagaroso, como se cerrasse as mãos em torno da base de ouro do Cálice, sentindo os rubis e demais pedras preciosas encrustadas.

Não havia motivo algum para procurarem o Santo Graal até hoje. Não havia motivo para tantas teses absurdas, das quais a última chegou ao cúmulo do absurdo: o Graal não seria mais um cálice, e sim um bebê de Jesus. Pura e descarada asneira…

O Santo Graal que tantos diziam estar perdido sempre esteve lá, em Valência. Os católicos espanhóis o conheciam bem, e sua devoção era bastante popular, não só entre os conterrâneos, mas em todo o mundo.

O Santo Cálice de Valência era, realmente, o Cálice utilizado por Cristo na Última Ceia.

E Mauro estava a um palmo de distância.

Se pudesse tocá-lo…

Se pudesse senti-lo…

Ele fora convidado a palestrar na exposição do Santo Cálice, àquela noite. Depois dele, falaria um sacerdote do Brasil, um tal Padre Jean Riachuelo, de quem, embora fosse Teólogo renomado, Mauro nunca ouvira falar.

Guido Mauro pôs a mão no vidro. Seus cinco dedos bem abertos.

Como queria tocar no Cálice!


EM BUSCA DO SANTO CÁLICE: Capítulo I – A chegada do Visitante

11 Maio, 2008

ROMA, maio de 2008.

As portas de bronze do Vaticano foram abertas às duas da madrugada. Instantaneamente, seis homens vestidos de preto atravessaram-na. Eram soldados da Guarda Suíça Pontifícia. Quatro deles permaneceram junto às portas e outros dois foram mais à frente. Olharam para a direita, para a esquerda, para o alto, para todos os lados.

-Limpo – falou um destes para alguém, num discreto microfone, oculto sob a gola do sobretudo.

-OK – respondeu uma outra voz, que o sub-oficial Matteo Svaldo pôde escutar no fone acoplado ao ouvido.

Dois faróis surgiram lá longe. Os seis guardas suíços voltaram-se naquela direção.

O carro foi se aproximando velozmente.

O Fiat Siena preto parou de chofre de fronte às portas de bronze.

As portas do carro abriram-se e dois homens saíram de seu interior, cada um segurando a alça de uma caixa de metal. Eles correram e entraram no Vaticano.

Um terceiro homem saiu do carro. Sua cabeça movia-se de um lado para o outro, olhando tudo ao seu redor. Era o Coronel Beo Von Swaden.

Após certificar-se de que ninguém os observava, o coronel deu a ordem:

-Tudo bem, entrem.

Os seis guardas suíços entraram no Vaticano. O Siena saiu dali tão rápido quando chegou.

As portas de bronze se fecharam novamente atrás do Coronel Swaden.

-Operação bem-sucedida. O visitante chegou – falou o Coronel ao microfone em seu sobretudo.

***

Naquele silêncio extremo, o som da caixa sendo posta no chão ecoou no interior da Estância de Constantino. Esta era a primeira das quatro Estâncias de Rafael, situadas no segundo piso do Palácio Pontifício, e assim chamadas por terem sido decoradas pelo famoso pintor Rafael; em outras épocas, foram utilizadas pelo Papa Júlio II, como também por vários de seus Sucessores, como aposentos pessoais. A Estância de Constantino, de sua parte, era destinada a recepções e cerimônias oficiais.

O Coronel Swaden entrou na Estância a passos rápidos, mas não conseguiu impedir-se de contemplar “O Triunfo da Religião Cristã”, pintado por Tomás Laureti no teto da sala, por encomenda do Papa Gregório XIII. A sala toda, em si, era representação do triunfo da Religião Cristã sobre o paganismo: nas paredes, a Escola de Rafael pintara belíssimas cenas da conversão do Imperador Constantino, com a qual definitivamente o Cristianismo venceu o paganismo do Império.

-Meu caríssimo Coronel Beo… – os pensamentos do Coronel foram interrompidos pela voz grave e melodiosa de Monsenhor Agostino Bacci, Diretor dos Museus Vaticanos.

-Reverendíssimo Monsenhor – falou Beo, apertando a mão de Mons. Bacci.

O Monsenhor sorriu.

-E então? Nosso visitante está aí? – Perguntou o Monsenhor, apontando com os olhos a caixa de madeira no chão.

-Tudo correu perfeitamente, Monsenhor.

-Certo – replicou Mons. Bacci, quase sem prestar atenção ao que dissera o Coronel; seus olhos brilhavam, contendo uma empolgação adolescente. – Então, vamos abrir…

O Coronel abaixou-se e pôs a senha na fechadura da caixa. Ao rolar o último número, a caixa se abriu.

Um brilho dourado refulgiu em seu interior, refletindo a luz da sala.

Monsenhor Bacci se ajoelhou e tomou em suas mãos a preciosa relíquia: um cálice de ágata roxa com uma magnífica base de ouro e pedras preciosas, tipicamente medieval.

Os olhos do Monsenhor brilharam. Brilharam empolgados…

O Santo Cálice de Valência estava em Roma de novo, após mais de 17 séculos.