-Prof. Mauro! Prof. Mauro! – Chamava uma jovem, sacudindo papéis nas mãos.
Um homem com grandes óculos, de lentes grossas que deixavam transparecer olhinhos diminuídos, virou-se e viu quem o tirava de sua atenta análise do Santo Cálice de Valência. O Prof. Guido Mauro era um dos mais afamados arqueólogos italianos. Seus cabelos brancos até as raízes davam-lhe um ar de sabedoria. Mas o fato de serem longos, caindo até os ombros, exprimiam-lhe certa jovialidade. Sua pele estava enrugada e queimada, resultados de uma longa passagem pela África, investigando pinturas rupestres antiqüíssimas.
Mas a paixão de Guido Mauro não eram nem estas pinturas rupestres, nem as tumbas faraônicas do Egito, ou os palácios persas, ou o que quer que fosse. Ele gostava disto tudo, mas paixão tinha uma só, obsessão somente uma: o Santo Cálice de Valência.
Fora o Santo Cálice que lhe valera o Mestrado e o Doutorado, fora ele que lhe valera três best-sellers. Era o Santo Cálice de Valência o pensamento constante a cada inspirar e expirar de Guido Mauro.
E agora uma jovem lhe tirava aos gritos de sua reflexão acurada sobre a relíquia.
Mauro não gostou nenhum pouco, mas se conteve.
-O que é, Srta. Carmélia?
A jovem estendeu-lhe os papéis.
-Acabei de receber os documentos que o senhor pediu ao Prof. Arturo Estivaz. Aqui estão…
Prof. Mauro tomou os papéis da mão da jovem e virou-se novamente:
-Obrigado, Srta. Carmélia. Pode ir agora.
A jovem saiu desapontada: esperava agradar o tutor, mas não lograra êxito…
Mauro fixou novamente os olhos no Santo Cálice.
Estavam a apenas 15 centímetros de distância, separados por um vidro. Durante toda a vida quisera pôr as mãos na relíquia, analisá-la, estudá-la.
Seus dedos se fecharam num movimento contínuo e vagaroso, como se cerrasse as mãos em torno da base de ouro do Cálice, sentindo os rubis e demais pedras preciosas encrustadas.
Não havia motivo algum para procurarem o Santo Graal até hoje. Não havia motivo para tantas teses absurdas, das quais a última chegou ao cúmulo do absurdo: o Graal não seria mais um cálice, e sim um bebê de Jesus. Pura e descarada asneira…
O Santo Graal que tantos diziam estar perdido sempre esteve lá, em Valência. Os católicos espanhóis o conheciam bem, e sua devoção era bastante popular, não só entre os conterrâneos, mas em todo o mundo.
O Santo Cálice de Valência era, realmente, o Cálice utilizado por Cristo na Última Ceia.
E Mauro estava a um palmo de distância.
Se pudesse tocá-lo…
Se pudesse senti-lo…
Ele fora convidado a palestrar na exposição do Santo Cálice, àquela noite. Depois dele, falaria um sacerdote do Brasil, um tal Padre Jean Riachuelo, de quem, embora fosse Teólogo renomado, Mauro nunca ouvira falar.
Guido Mauro pôs a mão no vidro. Seus cinco dedos bem abertos.
Como queria tocar no Cálice!
Escrito por tfsousa
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